Certa noite assombrosa,
Pelas bermas da estrada
Ia eu, pensando em nada
E, na folhagem medrosa
O vento, brando e hialino,
Soprava sua última agonia;
E cada galho que tremia
Entoava um antigo hino,
Parecendo querer acordar
Cada sombra estática
Na escuridão selvática
A fim de me observar.
E eu seguia pela senda,
Pisoteando a alfombra
De folhas, sob a sombra
Do bosque da fazenda.
Voava imerso no pretume,
A pontilhar a noite amena
Com sua luz, viva e pequena,
Um passageiro vagalume.
Escondeu-se numa fresta,
Deixando só, da lua, a prata
A iluminar o chão da mata
No labirinto da floresta;
Onde se ocultavam grilos,
Preenchendo a noite serena
De uma soturna cantilena,
Na monodia de seus trilos.
E a noite fez-se madrugada.
Sumindo, em meio ao arvoredo,
Silente como um morcego,
Passa uma negra sombra alada.
Pousando fez um som de açoite,
Roçando o corpo na galhada,
Até não se ouvir mais nada
Perante a vastidão da noite.
Mas do bosque antes ermo
Surge estranha gargalhada:
Parece a voz ensangüentada
Que sai da boca de um enfermo.
Era um riso inumano,
Do tom da voz de uma criança,
A empestear a vizinhança
Com um som mórbido e insano
Que logo a noite diluía;
Deixando só, nos verdes tetos,
O canto triste dos insetos
A esperar a luz do dia.
Aquele riso me cegava:
Sem ver nada pela frente
Eu corria, quase crente
De que alguém me observava.
Cheguei então a uma clareira
Que, refletindo a luz da lua,
Tornava azul a grama nua
Por entre as toras de madeira.
Ali o silêncio era profundo,
Nenhuma brisa ou perfume,
Somente a lua, em pleno lume,
A reluzir por sobre o mundo.
Explode outra gargalhada.
Enche o ar de um som soturno
Que, misturado ao ar noturno,
Vai imprimindo sua toada.
Como embrião de voz humana
A voz tão logo se apaga,
Deixando só uma sombra vaga
No emaranhado da liana.
Pude ver em tal momento
Que seus olhos tenebrosos
Eram dois brilhos sulfurosos
Refletindo o firmamento.
A íris, cor de ferrugem,
Na cabeça desproporcional,
Contrastava com as patas, mal
E mal aparecendo na penugem.
E a ave, pela noite envolta,
Não me fez ver perfeitamente
Sua silhueta, à minha frente.
E a imaginação correndo solta
Ficava horas a repensar
Que aquele olhar medonho
Era o olho de um demônio
A me observar.
Então soltou guturalmente
O seu triste riso torvo
E este riso, sem estorvo,
A ecoar no bosque quente,
Me deu um medo tão atroz,
A me cegar neste momento,
Que todo o meu pensamento
Tornou-se agitação feroz;
Pois fiquei a imaginar
Que o bosque estava cheio
Daqueles seres em devaneio
Soltando gritos pelo ar.
E corri (num passo bronco).
Tão cego e rápido corri,
Que nem sequer eu vi
A minha testa contra um tronco...
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