Friday, December 17, 2004

REVISTA CULT DE DEZEMBRO PUBLICA CINCO POEMAS

A revista CULT de literatura colocou, em suas páginas de Dezembro de 2004, cinco poemas do livro Rimas da Salamandra, de Marcelo Alvarez. Quatro destes poemas - CANÇÃO DO EXÍLIO, NO DESERTO, "A morte é cão faminto" e ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA - podem ser apreciados neste blog. O quinto poema é uma tradução livre do albatroz, de Baudelaire.

Monday, October 18, 2004

Há raras qualidades nos poetas

Há raras qualidades nos poetas
Que não os permitem ser felizes;
Nada passa em suas vidas desertas,
Apenas sonhos, de diversos matizes.

E os poetas esvaziam suas vidas,
E assim, eles matam-se aos poucos;
No coração vão abrindo feridas,
Bebendo o mesmo cálice dos loucos.

Porque o poeta nunca é alegre:
Se o fosse, não passaria todo tempo
A reler cada página que escreve.

E assim, fonema por fonema,
Seus versos vão levando pelo vento
Uma gota de sangue em cada poema.

MIL SÓIS

A noite vai entrar
Na janela do teu lar
Deitar-te em sonhos

O mar vai te molhar
Em suas ondas te abraçar
Levar-te ao longe

E tudo vai ser revolta
Explodindo à tua volta
Em brancas nuvens

Porque alguém vai se deitar
Lentamente no teu leito
Alojar-se no teu peito

E mil sóis irão brilhar
Numa iridescência cromática
Libertando a alma estática
Num passeio ao luar

A noite vai chegar
Esquentar a tua cama
Deitar-te em chamas

O mar vai te proteger
Em suas ondas de prazer
Despir-te às cegas

E se o vento secar
Tuas lágrimas de dor
Esqueça-as com amor

Porque alguém vai se deitar
Lentamente no teu leito
Alojar-se no teu peito

E mil sóis irão brilhar
Numa iridescência cromática
Libertando a alma estática
Num passeio ao luar

Porque alguém vai se deitar
Lentamente no teu leito
Venerando teus defeitos

RIMAS DA SALAMANDRA

A salamandra salta do fogo
Com sua rubra pele desidratada,
Rodopiando a cauda no nada.

A salamandra é o centro da dança
E quando dança, sua cauda balança
E chicoteia sua face zangada.

A salamandra rolou do barranco
Pisando no branco da areia,
Com sua cauda que serpenteia.

O TEMPO

O tempo
É uma ave de rapina
Cai como areia fina
Escapa em minhas mãos

O tempo
Com suas presas de marfim
Apontadas para mim

E o tempo passa
O tempo passa à toa à toa
E eu aqui, com o pé na praça
Tomando garoa

O tempo passa acelerado
À toa à toa o tempo passa
E eu aqui, com o pé na praça
Tomando cachaça e fazendo chalaça

E desdobrando-se num só
Passado e futuro ao mesmo tempo
Que onde tocam vira pó
O tempo passa acelerado
E os homens da praça sorriem
Me desejando carpe-diem

Mas quando cair o último grão
Do último segundo
Da ampulheta do futuro
E eu estiver junto ao solo
Abraçado com o chão duro
Onde estará a geração
que me levou no colo?
E o que terei deixado
de dizer para este mundo?

O tempo
É uma ave de rapina
Cai como areia fina
Escapa em minhas mãos

Fabricarei meu longo tempo
Esperarei meu curto fim
E quando o tempo se acabar
Não perderei a esperança
Sei que estarei feliz
Porque o tempo é uma criança

NO DESERTO

Vi no deserto bestial criatura despida
Que prostrada, de cócoras, no solo,
Segurava com as mãos, próximas ao colo,
Um coração sangrento, mas ainda com vida.

Estando a comê-lo, acheguei-me bem perto
Indagando-lhe: "É bom, meu amigo, é bom?"
"É amargo!", respondeu-me meio sem tom,
"É amargo e árduo como o sol do deserto.

Mas este coração que tão amargo mastigo,
Este coração sangrento, caro amigo,
É nesta terra o prato que eu mais gosto.

Porque este que eu seguro, lauta refeição,
É justamente o meu próprio coração."
E calou-se, com o petisco junto ao rosto.


(In the desert... Stephen Crane)

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tinha palmeiras
Onde vivia o sabiá;
As aves que longe gorjeiam
Não foram mortas como as de cá.

Nosso céu tem mais fumaça,
Nossas várzeas caçadores,
Nossos bosques têm madeira
Para os móveis dos senhores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Não me ponho a cismar
Se minha terra tem palmeiras
Ou se ainda temos sabiá.

Minha terra tem primores:
-Estão em algum cartão postal.
Em cismar, sozinho, à noite,
Não me ponho a cismar
Se a palmeira virou cinzas
junto com o sabiá.

Não permita Deus que eu morra
Sem que veja isto mudar.
Não permita Deus que eu cisme
Que a palmeira virou toco
E o sabiá quedou-se rouco
Por não ter pra quem cantar.

O choro da chuva canora

O choro da chuva canora
No jardim semi-alagado
Lembra-me alguém, que na vida fora
Ausência... Passado...

Hoje, quando esta cai
Batendo de encontro à vidraça,
Aquele rosto me distrai
Como névoa, que a chuva embaça.

SONETO AO TIGRE

Tigre! Tigre! Brilho que flamejas
Pelas florestas espectrais da noite,
Que olho ou mão imortal, forjou-te
A assustadora simetria em que vicejas?

Quando em luz os astros dardejarem
Molhando o céu com o seu pranto,
A fera desfilará o seu encanto
Às sombras do bambu que a velarem...

Ali fica. O seu olhar que se concentra
Fita a presa, que à noite se adentra
Farejando o vento brando e hialino.

Para então, no terreno e de soslaio,
Descer com a rapidez de um raio,
Expondo suas garras de felino.


(Tyger! Tyger! Burning bright... William Blake)

Os sons da era silenciosa

Os sons da era silenciosa
Invadem o meu quarto
Como um murmúrio
De seres apaixonados
Numa trégua constante:
Mares não navegados
De uma terra distante.

Os sons da era silenciosa
Invadem o meu quarto
Como dois corações
Que batem num compasso
Numa luta ardente:
Espadas de aço
Me atravessam de frente.

URUTAU

Certa noite assombrosa,
Pelas bermas da estrada
Ia eu, pensando em nada
E, na folhagem medrosa

O vento, brando e hialino,
Soprava sua última agonia;
E cada galho que tremia
Entoava um antigo hino,

Parecendo querer acordar
Cada sombra estática
Na escuridão selvática
A fim de me observar.

E eu seguia pela senda,
Pisoteando a alfombra
De folhas, sob a sombra
Do bosque da fazenda.

Voava imerso no pretume,
A pontilhar a noite amena
Com sua luz, viva e pequena,
Um passageiro vagalume.

Escondeu-se numa fresta,
Deixando só, da lua, a prata
A iluminar o chão da mata
No labirinto da floresta;

Onde se ocultavam grilos,
Preenchendo a noite serena
De uma soturna cantilena,
Na monodia de seus trilos.

E a noite fez-se madrugada.
Sumindo, em meio ao arvoredo,
Silente como um morcego,
Passa uma negra sombra alada.

Pousando fez um som de açoite,
Roçando o corpo na galhada,
Até não se ouvir mais nada
Perante a vastidão da noite.

Mas do bosque antes ermo
Surge estranha gargalhada:
Parece a voz ensangüentada
Que sai da boca de um enfermo.

Era um riso inumano,
Do tom da voz de uma criança,
A empestear a vizinhança
Com um som mórbido e insano

Que logo a noite diluía;
Deixando só, nos verdes tetos,
O canto triste dos insetos
A esperar a luz do dia.

Aquele riso me cegava:
Sem ver nada pela frente
Eu corria, quase crente
De que alguém me observava.

Cheguei então a uma clareira
Que, refletindo a luz da lua,
Tornava azul a grama nua
Por entre as toras de madeira.

Ali o silêncio era profundo,
Nenhuma brisa ou perfume,
Somente a lua, em pleno lume,
A reluzir por sobre o mundo.

Explode outra gargalhada.
Enche o ar de um som soturno
Que, misturado ao ar noturno,
Vai imprimindo sua toada.

Como embrião de voz humana
A voz tão logo se apaga,
Deixando só uma sombra vaga
No emaranhado da liana.

Pude ver em tal momento
Que seus olhos tenebrosos
Eram dois brilhos sulfurosos
Refletindo o firmamento.

A íris, cor de ferrugem,
Na cabeça desproporcional,
Contrastava com as patas, mal
E mal aparecendo na penugem.

E a ave, pela noite envolta,
Não me fez ver perfeitamente
Sua silhueta, à minha frente.
E a imaginação correndo solta

Ficava horas a repensar
Que aquele olhar medonho
Era o olho de um demônio
A me observar.

Então soltou guturalmente
O seu triste riso torvo
E este riso, sem estorvo,
A ecoar no bosque quente,

Me deu um medo tão atroz,
A me cegar neste momento,
Que todo o meu pensamento
Tornou-se agitação feroz;

Pois fiquei a imaginar
Que o bosque estava cheio
Daqueles seres em devaneio
Soltando gritos pelo ar.

E corri (num passo bronco).
Tão cego e rápido corri,
Que nem sequer eu vi
A minha testa contra um tronco...

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MEMÓRIA

A memória é um farol em meio à noite.
Sobre o corpo das ondas, ilhada nas pedras,
A memória é um farol que ilumina
Os gritos perdidos e as redes antigas
Dos que pescaram o tempo e nele se afogaram.

À GERTRUDE

Traduzi
"uma rosa é uma rosa é uma rosa"
de Gertrude Stein.

Se multiplicar
fosse o meu intento,
melhor seria
eu tirar o acento

da cabeça do "e"
que, sem esta pluma,
daria três rosas
ao invés de uma.

Mas a Poesia aí,
sem falsa riqueza,
condensa na rosa,
de três, a beleza.


(a rose is a rose is a rose...)

ÍCARO

Ícaro voou para o Sol
Na amplidão celeste do dia,
Mas suas asas, de cera alva e fria,
Chamuscaram-se no arrebol.

Da vida
Restou nada:
Cera imaculada
E derretida.

Assim Ícaro
Viu brilhar ao som dos sinos
A luz dos astros peregrinos.

Assim Ícaro
Viu tremer ao som da vaga
A luz do Sol que se apaga.

SONETO MARINHO

Már
more
mar,
que mor

re
on
de as
on

das
b
atem

em atem
porais
corais.

UM TEMA DE VINÍCIUS

Passarinho
que vens à janela
pedir-me um verso,

passe depois:
estou hoje imerso
em imensa alegria.

Passarinho,
até logo
e bom dia!

Poetaranha

Poetaranha
no crepúsculo
tece a teia,
veia e músculo,
tensão e atenção
em semi-susto,
em sobressalto,
em fino fio
de assovio
tece a trama
de altoabaixo;
até aqui,
onde me encaixo
à rima em fosca
com o pretexto
(Tecido o texto)
de prender
você, leitor,
como uma mosca.

A morte é cão faminto.

A morte é cão faminto.
Todo dia, assim o sinto,
passear a meu lado.

Faço-lhe um agrado.
Ele olha-me, arqueja
e baba, sem que o veja.

Enfrentá-lo não ouso:
torna-se raivoso;
late forte, morde a mão.

Mas que fazer, se o cão
me tem, a vida inteira,
na coleira?

O RELÓGIO

O luar,
quando entra
na sala
de jantar,
enfrenta
(Porém não cala)
o relógio.


E ilumina
o tic,
o tac,
e cada baque
de hora.


Depois vai-se embora.


O relógio fica:
(Trabalha na sombra).


Vai hora,
vem hora,
penduLarMente
tudo escoa


ao fim de tudo.
Onde, já mudo,
o relógio
se esboroa.

ESTE SONETO

Passei a tarde a escrever este soneto,
Quarteto por quarteto, terceto por terceto.
Em casa estive, com a humanidade lá fora,
E a tarde rubra, desmaiando foi-se embora.

Pois fiquei a destilar as antigas normas
De como erigir um soneto em reais formas.
Assim passei a tarde, no tempo desperdiçado
Com este papel e o soneto a ele atado.

E este soneto, embora seja bem rimado,
Não compensou todo o tempo aqui passado
E não melhorou, de poeta, a minha imagem.

Pois não derramei uma gota do coração
Neste soneto frio e sem inspiração.
Ficando como foi, preso à metalinguagem.

ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA

Escrevi a quadra inteira
Com a estrela de Bandeira.

Tentei então mudar de tom,
Dei com a pedra de Drummond.

Calculei e me dei mal
No mesmo salto que Cabral.

Desisti, fiquei à toa
Lamentando-me em Pessoa.

Dei-me então porre de uísque
E sonhei ser como Leminski.

Ressaquei, fui me exilar
No verso sujo de Gullar.

Furtei fruto e chupei cana
Até na quinta de Quintana,

Tentando ser como os grandes
Que se dizem pós-Noigandres.

Deixo agora a folha quieta
Pois deixei de ser poeta.